Comunidade Cristã | Encantado, 19 de março de 2019
SUICÍDIO DE PASTORES
Por: Pr. Armando Castoldi
08/01/2019

 

SUICÍDIO DE PASTORES

Sobre o lamentável fenômeno de suicídio de pastores, deixa-me fazer algumas colocações:

O maior pecado da Igreja Evangélica contemporânea, ao meu ver, é a soberba.  Pelo fato de realmente termos assumido essa prerrogativa de “abrir os olhos aos cegos, tirar da prisão o cativo e do cárcere os que jazem em trevas” - (Isaías 42.7), nós nos tornamos orgulhosos. Os “chamados” ministeriais foram aos poucos perdendo sua identificação com o coração de Deus e a identidade e o caráter dos líderes foram perdendo a identificação com o próprio Cristo: “Não clamará, nem gritará, nem fará ouvir a sua voz na praça. Não esmagará a cana quebrada, nem apagará a torcida que fumega; em verdade promulgará o direito. Não desanimará, nem se quebrará até que ponha na terra o direito e as terras do mar aguardarão sua doutrina” - (Isaías 42.2-4).

Ora, o ministério pastoral passou a ser objeto de realização pessoal, de busca de “status”, de sinônimo de poder temporal e no fundo, salvo muitas exceções evidentemente, o caminho mais curto para a fama. Os púlpitos se tornaram palcos para desfile de vaidades e instrumento de manipulação do povo. Pela mesma via enveredou todo esse movimento artístico que elevou cantores gospel à condição de ídolos.  Mas isso é assunto!

Ser eloquente, ser popular, ter uma personalidade carismática, ter a capacidade de manipular emoções, ter uma aparência atraente, um olhar convivente ou intimidador, esbanjar saúde, ter domínio de palco, ser “expert” em marketing, se tornaram requisitos indispensáveis à qualificação para o ministério pastoral. Assim, a santidade, a integridade de caráter, a transparência, a humildade, a fragilidade física ou uma aparência não tão sedutora, passaram a ser vistos sinais de fraqueza e objeto de repulsa pelas próprias congregações. 

O que esse perfil de líderes incitou nas congregações? O ufanismo messiânico, o espírito de superioridade, a egolatria, a comparação, a competição, as rivalidades.  Com isso,  não somente o Pastor se elevou acima da sua condição de servo do Senhor, mas cada membro da Igreja foi sendo contaminado por esse “mover diabólico”, e agora todos se acham no direito de julgar o pastor, de avaliar se desempenho, de exigir que ele cumpra as expectativas que cada um criou, segundo suas próprias “cobiças”.

Houve uma avalanche de livros nas últimas décadas, que fomentaram esse tipo de liderança. A grande maioria deles, provavelmente bem-intencionados, mas fundamentados não nos princípios do Reino, mas no espírito do mundo; fundamentados por princípios que podem funcionar muito bem na esfera e econômica ou política, mas que nos colocaram em rota de colisão conosco mesmos.  O mundo vive a era da competição e do descartável e ao aplicar essas mesmas leis ao Reino de Deus, adivinhem no colo quem tudo isso acabou caindo? Dos próprios líderes!

Os pastores hoje, salvo raras exceções, são homens sobrecarregados, estressados, que vivem abaixo de remédios, que não possuem mais tempo para cuidar da sua saúde física, das suas emoções, do seu espírito e, evidentemente da sua própria família.  Qual é o pastor que pode hoje dar-se ao luxo de passar longas horas em orações e comunhão com Deus?   A não ser que ele opte por não dormir!  Nesse caso então será visto como um verdadeiro “servo de Deus”, simplesmente por que hora na madrugada.  Mas como fica o seu dia?  A palavra é simples: “Pois se alguém não sabe governar a própria casa, como cuidará da Igreja de Deus” – (1 Timóteo 3.5).

 

 

Os ministérios hoje, em grande parte, são em si mesmos mecanismos suicidas, por que as  Igrejas e denominações - não todas evidentemente, foram  arrastadas pelas tantas ondas do movimento gospel, se inflaram em suas próprias vaidades e caíram armadilha que o apóstolo Paulo tanto temia: “Mas receio que, assim como a serpente enganou Eva com a sua astúcia, assim também seja corrompida a vossa mente e se aparte da simplicidade e da pureza devidas a Cristo” – (1 Coríntios 11.3).

Há uma infinidade de outras causas que atuam nesse processo. Forças satânicas certamente estão envolvidas; a maldade das pessoas certamente está envolvida, visto que os evangélicos, pela autonomia espiritual que encontraram na Palavra têm se tornado cada vez mais ousados em seus julgamentos, agravando exponencialmente o peso espiritual, emocional e físico que se abate sobre os pastores.

Mas para não me estender demais, gostaria de afirmar que ao meu ver, o suicídio de pastores é apenas uma consequência natural, que mais cedo ou mais tarde acabaria acontecendo, visto que a Igreja como um todo está há bastante tempo num processo suicida. Crentes comuns, no entanto, têm como encontrar outras saídas: Eles mudam de Igreja, encontram alguma zona de conforto na congregação, assistem cultos em casa pela televisão, reúnem-se em “panelinhas” para criticar os líderes e os irmãos, ou simplesmente vão cuidar dos seus próprios interesses e relegam a Igreja a um segundo plano.  Enfim, crentes comuns que pouco apostaram no Reino, pouco perdem quando também veem seus sonhos frustrados. Eles não irão se suicidar, não ao menos por esses motivos.

Mas, para aqueles que sinceramente entenderam ter ouvido o chamado de Deus e nele apostaram todas as suas fichas, não é tão simples lidar com o senso de inutilidade, com o senso de fracasso, com a oposição, crítica e condenação daqueles a quem dedicaram sua própria vida.  Quantos pastores encontram nas suas congregações irmãos com quem, podem repartir sem medos e os seus fardos?  E mesmo entre colegas, quando podem compartilhar suas fraquezas, sem o medo do julgamento e da comparação?  A solidão dos pastores é um mal que vem sendo detectado há muito tempo, mas poucos tem se importado com isso.  E eu ouso perguntar:  Se os pastores que se suicidam irão para o inferno, será que não encontrarão por lá também os seus algozes?

O que houve afinal no meio evangélico senão um triste círculo vicioso de arrogância? Não somos todos pecadores perdidos alcançados pela graça?  Por que um pastor precisaria sentir essa desumana pressão de ser um super-homem? Por que as congregações precisariam esperar que seu pastor o fosse?  Não bastaria que ele fosse um homem humilde, íntegro, sincero, dedicado à sua família, fiel ao Senhor; um homem de oração e apto para ensinar as Escrituras?   Não mereceria um homem assim dupla honra, ao invés de tantos julgamentos? (1 Timóteo 5.17-19)

Não podemos olhar o suicídio de pastores como algo isolado, que só diga respeito a eles mesmos. O problema é muito mais profundo. O suicídio de pastores revela o grau de enfermidade que as Igrejas se encontram.  E, se Deus tem algo a nos falar, para mim algo está muito claro:  Os pastores estão se suicidando, por que há muito a Igreja enveredou por uma rota suicida.  O que precisamos fazer para deter essa barragem que começa a se romper? Chega de tanta arrogância, chega de tanta vaidade, chega de tanto show, chega de tanta megalomania, de tanta fantasia, chega de tanta comparação, de tanto julgamento, de tanta maledicência. A Igreja precisa se reencontrar com sua identidade e missão: “Vós, porém, sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamarmos as virtudes daquele que nos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz” – 1 Pedro 2.9.

Que retorne a humildade, a santidade, o amor fraternal, a misericórdia, a compaixão, o senso de pertencimento, a alegria de ser Corpo de Cristo, a submissão a quem de direito, a autoridade espiritual para anunciar o Evangelho, o anseio pela pátria celestial e não pelos tesouros deste mundo.  

Enfim, precisamos de um arrependimento profundo; precisamos retornar humildes e quebrantados aos pés de Cristo e reconquistar novamente o coração do Pai: “Se o meu povo que se chama pelo meu nome, se humilhar, e orar, e me buscar, e se converter dos seus maus caminhos, então, eu ouvirei dos céus, perdoareis os seus pecados e sararei a sua terra” – (2 Crônicas 7.14)

Que Deus tenha misericórdia!

Fraternalmente em Cristo.

Pr. Armando Paulo Castoldi

 

 

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